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Onça-pintada na Praia Grande

Carlos Prudente
onca-pintada

Classe: Mammalia
Ordem: Carnívora
Família: Felidae
Gênero: Panthera
Nome popular: Onça-pintada
Nome científico:Panthera onca
Distribuição geográfica: América do Norte, Central e América do Sul
Habitat: Florestas, pantanal, cerrado e caatinga
Hábitos alimentares: Carnívoro
Reprodução: Gestação de 73 a 105 dias
Período de vida: Aproximadamente 25 anos



A onça-pintada Panthera onca, mamífero, carnívoro, da família dos felídeos, sua distribuição geográfica estende-se do sul dos Estados Unidos até a Patagônia argentina, é o maior predador terrestre das Américas. Felino de grande força física possui uma das mais poderosas mordidas, mata mordendo o pescoço, na cervical, ou o crânio de sua presa. Caçador absoluto na cadeia alimentar, sua presença indica boa qualidade e equilíbrio do ambiente.

Animal de hábito solitário demarca seu território urinando e defecando em pontos estratégicos, habitualmente arranham as árvores para marcar sua presença e afiar as unhas (tal qual fazem os gatos nos móveis). Sua pelagem é uma mescla de cores, amarelo, preto e branco em forma de rosetas, alguns espécimes apresenta uma coloração preta, devido à presença de maior quantidade da melanina, porém, é a mesma espécie; velhos mateiros e caçadores chamam de “lombo-preto”, indivíduos de coloração castanha escura em seu dorso; imputam-lhe também outros nomes como: canguçu, jaguar e jaguaretê (jaguarete vocábulo da língua guarani).

Os diferentes habitat da onça-pintada lhe atribui tamanho diverso, acredita-se que seja em razão à maior fartura de presas e a vegetação menos densa, a que vive no pantanal é a maior de todas, diferenciando das que vivem em florestas, como as da Amazônia e a Mata Atlântica onde são menores, mas não menos extraordinárias.

A baixa população de onças na floresta atlântica é preocupante, são poucos espécimes para manter uma situação aceitável e não haver consangüinidade. Contudo a natureza nos mostra a sua magnitude expondo mais uma vez a capacidade de recuperação, repovoando a sua fauna, mas isto implica que lutemos para a redução das ameaças impostas a que a mesma está sujeita.

Nosso país tem o histórico de uma colonização extrativista, desmatavam e caçavam animais para enviá-los à Europa para presentear os nobres, eram símbolos de luxo e riqueza, ou para servir de escambo, ainda hoje ocorre o contrabando de nossos animais para o mundo.

Com os imigrantes, o hábito da caça ficou muito difundido como esporte em nosso território e, ao longo do tempo, o desmatamento e as caçadas levaram muitas espécies à extinção e outras foram reduzidas a uma situação perigosa, juntamente com nossos biomas. A Mata Atlântica é um desses exemplos. Com a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, proibindo a caça, houve um aumento da fauna significativo, principalmente nos lugares onde os caçadores precisavam de transporte e que, de certa maneira, ajudou a coibir essa prática predadora, pois pelas estradas poderiam ser flagrados. Entretanto, com o descaso e a impunidade, nos limites das florestas com as cidades e em muitos sítios, situados em área de mata, a caça e o corte da palmeira juçara Euterpe edulis voltou a acontecer; é muito fácil encontrar armadilhas como laço, mundéu, gaiolas de carreiro, quebra-cabeça e ouvir tiros nessas regiões; pior ainda, os lugares em que se fazem encomendas de caça (fica o alerta para quem de direito).

Não citarei o local exato para preservar o animal, mas fica muito próxima da cidade de São Paulo, na Mata Atlântica, a existência do maior predador terrestre das Américas.

Tudo começou há aproximadamente 45 anos quando encontrei, pela primeira vez, uma onça-pintada; a partir daí, sempre andando por essas paragens a fim de fotografar a natureza, descobri que na região morava um canguçu macho e uma fêmea, convivendo na mesma região com onças-pardas (suçuarana). Como a caça diminuiu nos lugares afastados, os animais que estão nascendo no centro das florestas, ao chegar à idade adulta, migram, procurando outros territórios, e aproximam-se das cidades, onde fatalmente ocorrerão encontros com caçadores; estes, no caso, estão matando pacas, veados, porcos, como os catetos e queixadas, que são as presas naturais das onças; não havendo comida, elas irão atacar animais domésticos e serão taxadas de animais problemáticos. O desfecho é fácil calcular, a morte da onça!

Provavelmente o filho ou neto desse casal está fixando território em um desses recantos; há 3 anos venho encontrando vestígios de sua presença no local, como fezes, pegadas, um esturro ao longe e um encontro visual no dia 5/5/2011 (amostras das fezes estão sendo armazenadas para análises de DNA).

Preocupa-me muito o futuro de nosso meio ambiente e os rumos que se segue; como fotógrafo de natureza, observo e estudo os hábitos dos animais para melhor fotografá-los, ando por lugares surpreendentemente maravilhosos e expor fotos e descobertas para o público me traz responsabilidades sobre a preservação desses fatos. Precisamos combater a caça, o desmatamento e promover os corredores ecológicos. Chegou a hora de plantar o que destruímos ao longo dos anos e de todas as maneiras possíveis incentivarmos a atitude de preservação, seja com palestras ou em uma simples conversa, principalmente com as crianças.

No início de 2012, continuo minhas pesquisas sobre a onça-pintada e, com o objetivo de encontrá-la, vou fotografando a natureza, que insiste em me deslumbrar a cada passeio realizado.

A onça-pintada possui um território muito extenso, dificultando a sua localização; as menores áreas foram estimadas em 13 km² nas florestas de Belize Rabinowitz, & Nottingham, 1986 e as maiores em 265 km² no cerrado do Brasil central Silveira, 2004. Para auxiliar minhas buscas, observo os seus hábitos de caça e de suas presas, como porcos, veados, antas, etc., que, por sua vez, seguem a disponibilidade de seus alimentos, como os frutos que amadurecem em diferentes regiões e épocas do ano dentro do domínio territorial da onça-pintada. Por vezes, a onça desaparece da região onde outrora se fazia presente e aparece novamente após alguns meses.

Com essas informações, estou indo na mesma época à região onde eu avistei uma onça no ano passado, no dia 5/5/2011.

Já no local, e para minha surpresa, encontrei uma carcaça de um veado-mateiro Mazama americana) recentemente abatido e devorado quase que totalmente, comprovando a presença do predador.

Na semana seguinte, mesmo com mal tempo, percorri o local por 3 dias, deixando sempre meus filhos avisados sobre a região onde estaria, porque fui só para a mata. Em uma dessas buscas encontrei próximo a um grande guapuruvu parahyba) tombado pelo vento a carcaça de um porco do mato, cateto Tayassu tajacu, seus ossos já estavam corroídos pelo tempo e pelos insetos, mas ainda havia alguns pelos que identificam a espécie.

No terceiro dia de buscas, 25/4/2012, após o café da manhã, segui pela picada em busca de uma árvore frutífera, que em maio do ano anterior estava com frutos muito apreciados pelo muriqui ou mono-carvoeiro (macacos que são também alimentos da onça). Mesmo com os frutos ainda verdes resolvi ficar à espera por 2 horas entre as raízes de uma figueira-mata-pau Ficus guaranitica que por segurança cobria as minhas costas, sentei-me e aguardei, mas nenhum animal ou ave apareceu, só os mosquitos! Retornando pela mesma picada durante 20 minutos aproximadamente, observei uma pegada de onça sobrepondo a minha, momento especial que me causou um frio na espinha e fotografei a audácia dessa gata.

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Nesse momento, lembrei de um mito contado por antigos caçadores de onça com zagaia (lança muito afiada); diziam esses caçadores que a onça pisava sobre a pegada do caçador para sentir se ele era medroso.

Notei que ela seguia o carreiro (caminho de animais) dos catetos Tayassu tajacu que andavam pelas redondezas. Caminhei sorrateiramente em seu encalço por horas entre grotas e pirambeiras até perder suas pistas em um lajedo de pedras; por horas andando, o cansaço e a fome já se faziam sentir.

Resolvido a voltar, cortei caminho pela margem de um riacho que corria manso, quase não se ouviam seus burburinhos; metros adiante, encontrei alguns sapinhos e resolvi fotografá-los, sentando sobre uma pedra para descansar e trocar a lente da câmera. Por um momento, passei a contemplar a natureza e sentir o silêncio e a brisa da mata, quando, de repente, surge a uns quarenta metros à frente a imagem esperada há quase 30 anos: uma onça-pintada! Ela caminhou mais um pouco e parou pra cheirar alguns galhos, notei que não me percebera, porque estava a favor do vento e eu não respirava, não mexia nem os olhos e acho que o coração também parou por alguns segundos. Sentindo seu cheiro forte e penetrante e sem ângulo para fotografar fiquei imóvel à espera de um bom momento; quando ela se distraiu por um instante, levantei-me, apoiando o braço em um galho, e fui fotografando aquela cena que jamais vou esquecer. Algumas fotos saíram apenas como borrões, pois eu tremia tanto pela emoção que não conseguia controlar tamanha felicidade. Diferente do primeiro encontro, quando ela tinha me visto primeiro e saiu andando calmamente, nesse, como ela foi surpreendida, ao me perceber saltou espetacularmente para o lado e desapareceu como em um passe de mágica, e eu, meus amigos, sinceramente, precisei de alguns momentos para me localizar e seguir meu caminho pela floresta maaaaaraaaaavilhosa chamada Mata Atlântica.

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